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Pandemia, desvalorização e violência: o que é ser professor em São Paulo

Trabalhadores falam sobre o exercício de educar sob o governo paulista

Publicado: 15 Outubro, 2020 - 17h32 | Última modificação: 15 Outubro, 2020 - 17h49

Escrito por: Vanessa Ramos - CUT São Paulo

Arte: Maria Dias/CUT-SP
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Ser professor e professora significa ensinar, mas também aprender, partilhar experiências no cumprimento de um papel que contribui para a formação e o pensamento humano.

Educar, porém, não tem sido tarefa simples, principalmente quando há desvalorização e falta de investimento por parte do governo.

Situações que já eram difíceis, se tornaram ainda piores com a pandemia do novo coronavírus, avalia o professor Douglas Izzo, titular de Sociologia e Geografia na rede pública estadual e presidente da CUT São Paulo.

Neste 15 de outubro, data em que se celebra a profissão, ele falou sobre como os educadores percebem seu trabalho nas escolas públicas da rede estadual.

“Temos um plano de carreira que não nos valoriza. Vivemos obstáculos diários, especialmente agora na pandemia, mesmo assim, conseguimos superar graças ao empenho da categoria, ao compromisso com a escola e com o estudante porque não é fácil fazer o teletrabalho, o ensino à distância.”

O dirigente lembra que duas das principais lutas hoje junto ao governo de João Doria (PSDB) são a exigência de um auxílio emergencial para os professores temporários sem contrato e eventuais e o não retorno às aulas presenciais em 2020.

Para a professora Maria Izabel Azevedo Noronha, mais conhecida como Bebel, que também ocupa as cadeiras de deputada estadual e presidenta do Sindicato dos Professores no Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), a desvalorização do governo vai na contramão da sociedade.

“A sociedade reconhece a importância da nossa profissão e nos valoriza, mas o governo nos desprestigia, retira nossos direitos e não nos oferece condições adequadas de trabalho e de salário. O que nos move é o nosso profundo compromisso com o futuro de nossas crianças e jovens e do país”, afirmou.

Novo Fundeb

A valorização salarial e profissional para toda a categoria, cumprindo, ao menos a lei do piso salarial profissional nacional (nº 11.738, de 2008), é também questão comentada pelos professores estaduais, que exigem ainda revogação do aumento das contribuições dos professores aposentados para a Previdência que, segundo os entrevistados, é “abusiva”.

Neste momento de desmonte de inúmeras políticas no Brasil, o dia 15 de outubro se torna data de celebração pela aprovação do Novo Fundeb, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica, aprovado pelo Senado em 25 de agosto.

Com a promulgação da Emenda Constitucional nº 108, de 2020 (PEC15/2015, na Câmara; e PEC26/2020, no Senado), a categoria vivenciou uma conquista de alguns anos de enfrentamento, garantindo a constitucionalização de uma política discutida em todo país de forma democrática.

Além de se tornar permanente, o Fundeb aumentará, até 2026,  progressivamente, para 23% os repasses da União para o ensino público.

Cotidiano paulista

Professor de Geografia e História há 20 anos na Escola Estadual Pastor Joaquim Lopes Leão, na cidade de São Vicente (SP), Carlos Riesco disse que ser educador na rede estadual de ensino é um ato de superação diária dada as várias violências às quais a categoria é exposta.

“Vivemos permanentemente a defesa constante da educação pública, laica e de qualidade. Vivo todos os dias o contraditório da realidade pedagógica ensinada na universidade de educação e da educação libertadora do educador Paulo Freire. Assim como a realidade de um descaso governamental brutal promovido principalmente pelos governos do PSDB no estado mais rico da federação", falou ele, que é também coordenador da CUT-SP na Baixada Santista.

Foto: Cris Castello Branco/Governo do Estado de SPFoto: Cris Castello Branco/Governo do Estado de SP

Há 25 anos como professor na Escola Estadual Professora Dulce Maria Sampaio, em Itaquaquecetuba (SP), Benedito Carlos dos Santos apontou a contradição entre o amor por lecionar e os percalços da profissão.

"Ser professor é uma dádiva, agora ser professor no estado de São Paulo é um desafio, pois enfrentamos uma desvalorização há anos da categoria, além de uma violência física e verbal que é praticada não só na sala de aula por alguns alunos, mas pelo próprio governo.”

Esta realidade não é diferente para o professor Jefferson de Albuquerque Cypriano Rosa, que ensina há 10 anos Geografia na Escola Estadual Professora Maria Elisa de Azevedo Cintra, em Suzano (SP).

“Sofremos vários ataques porque temos um governo que dá as costas para a educação há muito tempo. Isso faz com que ano após ano, a desvalorização aumente. Mesmo assim, trabalhamos muito para fazer a diferença na vida dos jovens no estado de São Paulo.”

Esta diferença é também citada pela professora Telma Victor, que leciona Artes na Escola Estadual Dr. “Mitsusada Umetani", na cidade de Pereira Barreto (SP).

“Eu escolhi a profissão de professora por acreditar na importância de troca de experiências com as crianças e jovens através do conhecimento. Infelizmente, no estado de São Paulo nunca foi uma profissão valorizada e prezada como merece, sem falar das inúmeras vezes que sofremos violência policial ordenada pelo governador nos momentos em que estamos lutando por nossos direitos”.

Segundo Telma, que é também secretária de Formação da CUT-SP, o governo não investe na melhoria e nas condições de trabalho dos professores e do funcionalismo em geral.

“Isso é muito triste. A escola deveria ser um lugar onde os alunos sentissem prazer em estar. Um lugar de trocas, de descobertas, sonhos e realizações, mas este sonho está cada dia se tornando mais difícil. Eu amo minha profissão e sigo lutando para que nossos direitos sejam respeitados. Onde estiver luta em favor da educação, lá estarei! Sempre!”, concluiu a professora.

Sobre a data

O Dia do Professor, comemorado em 15 de outubro, foi instituído por um decreto do presidente João Goulart em outubro de 1963.

Porém, 15 anos antes, a data já havia sido sugerida em um projeto da deputada estadual Antonieta de Barros, mulher negra, uma das primeiras mulheres parlamentares eleitas no Brasil, pelo estado de Santa Catarina.

Foi desta mulher a ideia de criar a Lei nº 145, de 12 de outubro de 1948, estabelecendo feriado escolar e o Dia do Professor no país.