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Moradores de Osasco lutam para preservar a memória da cidade

Museu Municipal está fechado ao público, enquanto que acervo se deteriora em meio à falta de uma política de preservação cultural; Próximo sábado, dia 19, haverá abraço simbólico em frente ao local, às 10h

Publicado: 11 Fevereiro, 2022 - 18h09 | Última modificação: 16 Fevereiro, 2022 - 09h39

Escrito por: Rafael Silva - CUT São Paulo

Reprodução/Paulo Roberto/TripAdvisor
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Foi em 7 de janeiro de 1910, há 112 anos, que decolou o primeiro voo em solo latino-americano. O feito, realizado menos de quatro anos após o voo do 14-BIS, o primeiro no mundo, ocorreu em um aeroplano por 103 metros em Osasco, que na época era uma vila de São Paulo.

O voo durou pouco mais de seis segundos e atingiu uma altura de quatro metros, saindo de um galpão vizinho ao Chalé Brícola, onde moravam os pais do engenheiro e inventor Dimitri Sensaud de Lavaud. Foi Dimitri, ao lado de seu mecânico Lourenço Pellegatti e os trabalhadores da empresa de seu pai, que construíram o aeroplano batizado de “São Paulo”, levando um grande público a acompanhar a apresentação.  

O Chalé Brícola, um casarão com arquitetura com influências do norte da Itália, está localizado no que hoje corresponde à região central de Osasco, e foi transformado em um Museu Municipal, em 1976, onde abriga fotos, livros e documentos com informações sobre esse voo histórico. Além disso, dados sobre a história da cidade também estão guardados no local, tendo grande parte do acervo doado pelos moradores.

Apesar dessa importância, o Museu está fechado ao público desde 2019 e enfrenta graves riscos devido à falta de preservação por parte da gestão do prefeito Rogério Lins, do Podemos, e de seu secretário de Cultura, Cláudio Henrique da Silva. Como os funcionários foram remanejados para outros equipamentos, o local está praticamente abandonado há quase três anos.

Manifestantes cobram da prefeitura a imediata restauração do prédio, a volta do acervo do museu e a reabertura do espaço ao público. No próximo dia 19 de fevereiro, data do aniversário da cidade, está prevista a realização de um abraço simbólico em frente ao Museu, na Avenida dos Autonomistas, 4.001, a partir das 10h.

Moradora de Osasco há 64 anos, a jornalista Rosa Eleutério sempre esteve ligada à história da cidade, pesquisando e produzindo informações a respeito. Atualmente participa do Movimento em Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Osasco, ajudando a mobilizar moradores da região para lutarem por políticas de preservação da memória local.

Rosa ilustra o abandono da gestão pública citando o desaparecimento da réplica do avião que ficava no local. “No museu existia uma réplica do avião São Paulo, mas ela desapareceu. Com o fechamento, há cerca de três anos, o prédio está deteriorando a olhos vistos devido a total omissão da prefeitura. As autoridades não tomam providências e não dão satisfação à população nem sobre o acervo do museu, que ninguém sabe onde está”, afirma Rosa.

Criado recentemente em meio à falta de informações por parte do município, o Movimento quer a imediata reabertura do único museu da cidade e argumenta que a prefeitura tem usado a pandemia de covid-19 como desculpa para seguir adiando qualquer plano de manutenção do espaço. Diz também que, apesar do fechamento para o público geral, a prefeitura poderia seguir com a manutenção e cuidados do acervo, o que não ocorreu durante esse tempo.

Mas além do Museu Municipal, outros equipamentos de arte e de cultura sofrem com a falta de ação pública, como é o caso da Biblioteca, a Escola de Artes, o Teatro Municipal e o Centro Cultural Afro-brasileiro Casa de Angola, que, entre variações, estão com fiação exposta, vazamentos de água e infiltrações.

“Tem governos que respeitam a cultura e a história e mantém o patrimônio da cidade, o que não é o caso desta gestão, que possui total despreparo para zelar pelo bem público. E isso é um crime”, diz Valdir Fernandes, o Tafarel, bancário e coordenador da subsede da CUT-SP em Osasco.

“Queremos a imediata restauração e reabertura desse museu. Neste mês, Osasco irá completar 60 anos de emancipação política, mas a cidade tem 127 anos de existência e muita história mal cuidada. Uma memória que vai se perdendo na medida em que os mais velhos partem e levam com eles histórias que as novas gerações nunca conhecerão. E não justifica a prefeitura alegar falta de recursos, pois estamos falando de uma cidade que está entre as seis mais ricas do país”, lembra Rosa.

Secretário de Cultura da CUT-SP, Carlos Fábio, o Índio, diz que a situação de Osasco é algo que tem se repetido em diversas cidades pelo Estado, sobretudo onde há gestões em sintonia com a política nacional de Cultura. “Vivemos um momento onde o setor cultural não somente é desvalorizado, mas atacado até mesmo pelo secretário de Cultura nacional, que nada entende do assunto. E essa falta de ação traz resultados assustadores, como o abandono de equipamentos que promovem a preservação da memória. E uma sociedade sem memória, sem a sua história, não avança”, lamenta.

Resposta da Prefeitura

A CUT-SP entrou em contato com a Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Osasco, que informou que a manutenção tem sido realizada no local, bem como o acervo está sob cuidados. "Neste período o Museu teve a limpeza e a conservação das equipes de apoio das secretarias de Obras e de Meio Ambiente. Parte do acervo está guardado na Secretaria de Cultura com todos os cuidados pertinentes", informou a pasta. O munícipio também respondeu que três funcionários e um vigilante noturno atuam no museu.

Sobre a reabertura do espaço, a Prefeitura espera que seja feita até o segundo semestre deste ano, "a depender dos estudos técnicos e viabilização de recursos".

A Prefeitura disse ainda que o valor destinado para os equipamentos de Cultura mencionados nesta matéria é de seis milhões de reais, conforme apontamentos na LOA (Lei Orçamentária Anual)