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Em SP, empresa vira alvo do MP após ameaçar trabalhadores que não votam em Bolsonaro

Se comprovado, Grupo Vetro, localizado em Ibaté (SP), estaria incorrendo em prática de coação eleitoral, que é crime

Publicado: 26 Outubro, 2022 - 10h52 | Última modificação: 26 Outubro, 2022 - 15h33

Escrito por: Rafael Silva - CUT São Paulo

Fernando Frazão/Agência Brasil
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A poucos dias do segundo turno da eleição que vai escolher o novo presidente da República, no proximo domingo (30), o expediente do Ministério Público do Trabalho (MPT) foi tomado pelo aumento de denúncias de assédio eleitoral envolvendo empresas em todo o país. Só os trabalhadores e trabalhadoras da Região Sudeste fizeram 617 denúncias contra 540 empresas até às 19 horas desta terça-feira (25). Em todos os casos, os patrões, chefes ou gerentes pressionam para que votem em Jair Bolsonaro (PL). Não tem nenhuma denúncia de assedio para que votem no ex-presidente Lula (PT).

Uma das denúncias registradas na Região Sudeste é contra os donos do Grupo Vetro (antiga Vetro Plásticos), localizada em Ibaté, na região de São Carlos, no interior de São Paulo. Com atuação na fabricação de fibra de vidro, executivos da empresa estariam ameaçando os trabalhadores caso não votem em Bolsonaro.

De acordo com as denúncias, confirmadas pelo Sindicato dos Vidreiros do Estado de São Paulo, os empresários realizam reuniões semanais com os empregados, onde alertam que, caso Bolsonaro perca a eleição, a empresa terá as atividades encerradas e todos ficarão desempregados. A ameaça de desemprego é a mais comum em todo o país.

Essas ameaças ocorrem as segundas, durante os encontros internos chamados de DDS (diálogo de segurança), quando tratam de assuntos relacionados aos riscos no local de trabalho. Ao término da atividade, é reservado um momento com caráter político, quando os trabalhadores se submetem a uma espécie de terrorismo emocional, em que são ameaçados a perderem o emprego se o candidato citado não for reeleito. Além disso, muitas fake news (notícias falsas) são compartilhadas e os funcionários, cerca de 150, saem com a missão de conseguir votos entre seus familiares.

“Essas eleições têm mostrado a verdadeira face de muitos patrões, que se acham donos dos trabalhadores ao impor a eles quem devem ou não escolher diante da urna. É um evidente abuso de poder, pois ameaçam demissão para ter o que pretendem, afirma Fernando Silva, o Cabeção, dirigente do Sindicato dos Vidreiros.

A denúncia inicialmente foi registrada pelos trabalhadores diretamente no Ministério Público do Trabalho, que, além de informar o Sindicato, também encaminhou uma notificação à empresa para apresentar explicações sobre os fatos alegados. O MP agendou uma audiência pública virtual para esta quarta-feira, 25, com representantes da empresa e do sindicato.

Essa, no entanto, não é a primeira vez que o Grupo Vetro desrespeita a lei. A empresa já tem um histórico de descumprir acordos coletivos e as leis trabalhistas, com empregados atuando sem registro, sendo vítimas de perseguição e assédio moral. Os donos também promovem práticas antissindicais, impedindo a organização dos trabalhadores na porta da fábrica.

Reprodução Google StreetReprodução Google Street
Empresa do Grupo Vetro, em Ibaté (SP)

“Caso não se chegue a um acordo que garanta a liberdade aos trabalhadores, vamos entrar com outras ações e até mobilizações na porta da fábrica”, diz o Cabeção.

Saiba como denunciar

Bateram recordes as denúncias no Ministério Público do Trabalho sobre assédio eleitoral envolvendo empresas. Desde o início do segundo turno das eleições presidenciais, o órgão abriu um canal em seu site, onde já registrou mais de 1027 casos. Boa parte das empresas envolvidas estão sendo obrigadas a se retratarem com pedidos de desculpas, além de receberem multas e tendo de pagar indenizações aos trabalhadores. Em todas as situações que se tornaram públicas, os patrões exigem ou tentam comprar o voto para o mesmo candidato: Jair Bolsonaro.

Mas além do MPT, O PortalCUT também disponibiliza um espaço para receber as denúncias dos trabalhadores. Desde o início desse canal, só no Estado de São Paulo, chegaram acusações envolvendo 22 empresas, dos mais variados ramos, como educação, químico, alimentos, comércio e agrícola.

“A CUT, demais centrais, e os sindicatos têm acompanhado junto ao MPT essas denúncias, e também pedem ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) respostas para esses casos. Mas paralelo a isso, é importante sempre lembrar ao trabalhador que ele é livre para votar conforme sua consciência, no candidato que melhor represente seus ideais. Na frente da urna eletrônica, será somente ele, não tendo de provar nada depois para seu empregador”, conta a secretária de Assuntos Jurídicos da CUT-SP, Vivia Martins.

Para fazer a sua denúncia no PortalCUT, clique aqui. Ou acesse a página especial das Centrais Sindicais.