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Eleições: uso de ferramentas como IA impõem novos desafios para classe trabalhadora

Os desafios da classe trabalhadora nas eleições de 2024 não podem ser maiores do que nossa capacidade de organização

Publicado: 24 Julho, 2024 - 14h49 | Última modificação: 30 Julho, 2024 - 17h06

Escrito por: Antonio Netto - Secretário Interino de Comunicação CUT-SP

Arte: Maria Dias / CUT São Paulo
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Passados quase 35 anos de quando retomamos o direito a votar para Presidente da República e, no ano em que a CUT-SP completa 40 anos de luta por liberdade e democracia no Brasil, a classe trabalhadora tem grandes desafios nessas eleições. Alguns, velhos conhecidos, outros mais recentes.

Com o início do prazo para que os partidos políticos e as federações partidárias possam registrar suas candidaturas a prefeito e vereador em todos os municípios brasileiros, inicia-se mais uma campanha eleitoral nesse curto período desde a redemocratização brasileira. O debate da comunicação é fundamental para entender a situação em que nos encontramos e para definirmos como devemos agir em um período tão decisivo para a classe trabalhadora.

A estrutura de comunicação monopolista representada pelos jornais de grande circulação e conglomerados de rádio e televisão sempre representaram o discurso do Capital e os interesses dos patrões. De edições de debate manipulados à editoriais que afirmavam que a disputa entre um democrata e um inimigo declarado da democracia seria “Uma Escolha Difícil”, nossa elite econômica sempre utilizou seu enorme aparato de imprensa para distorcer, mentir, desviar o foco das questões mais importantes para os trabalhadores em cada eleição.

O surgimento da internet e o avanço de novos dispositivos e meios de comunicação, trouxeram a esperança de que, finalmente, esse monopólio seria quebrado. A democratização da comunicação promovida por esses novos meios permitiria que, em tempo real, as informações produzidas pelas entidades que representam os trabalhadores, a imprensa independente e alternativa tivessem um alcance muito maior. 

Lamentavelmente, esses avanços também traziam consigo um mal diante do qual não estávamos nem um pouco preparados: essa democratização da produção e do consumo de meios de comunicação foi explorada também por grupos de extrema direita, negacionistas científicos, racistas, xenofóbicos, LGBTQIAP+fóbicos etc. que encontraram espaço para divulgar suas pautas, fazer agitação política, eleger representantes e, por fim, tramar contra a própria democracia e liberdade de expressão.

Se não bastassem nossos adversários do passado, o presente trouxe outros desafios com os quais tentamos lidar diariamente, seja desmentindo notícias falsas em nossas Brigadas Digitais ou nos grupos de WhatsApp da firma, da família, etc, seja nos organizando em campanhas políticas para elaboração de projetos de lei no sentido de combater os danos causados pelo fenômeno das novas redes sociais. 

Avançamos na luta contra esse processo em diversas frentes, mas o controle desses novos meios na mão de conglomerados internacionais de comunicação, as chamadas “Big Techs” colocam novamente interesses comerciais e financeiros à frente do direito à informação livre e democrática. 

Cada vez mais os algoritmos das ferramentas controladas por essas empresas direcionam conteúdos de discurso de ódio e falsos para uma extraordinária quantidade de pessoas, seja por mero interesse político dessas corporações, seja simplesmente porque esse tipo de uso alimenta o mecanismo que essas redes necessitam para manter seu público conectado e, com isso aumentar seus lucros com propaganda direcionada.

À medida que as ferramentas tecnológicas avançam nos deparamos com novos e maiores riscos: se nas eleições de 2022 pouco se falava sobre o uso da IA (Inteligência Artificial), dois anos depois, às vésperas das eleições municipais de 2024, há uma real preocupação sobre como essa tecnologia pode interferir na campanha eleitoral. 

Apesar de parecer distante pelo nome “rebuscado”, todo mundo já teve contato com algum tipo de IA. Ao enviar uma mensagem e receber uma resposta personalizada de um robô, assistentes virtuais que identificam comandos de voz, programas de rotas. Tudo isso utiliza Inteligência Artificial.

O tal do “chatbot inteligente” é capaz de analisar informações digitadas e apresentar respostas. A ferramenta consegue criar textos e até códigos para programação. É um universo de recursos que pode ser direcionado tanto para o bem, quanto para o mal.

Na corrida eleitoral, os fatos falam por si: a Justiça já começou a punir o uso irregular de IA na pré-campanha. Alguns tribunais regionais eleitorais já multaram ou determinaram a remoção de conteúdos, em boa parte dos casos pelo uso de deepfakes - que são imagens, vídeos ou áudios manipulados para criar declarações ou situações.

Em fevereiro deste ano, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) aprovou regras para o uso da IA, incluindo a proibição das deepfakes e a obrigação de aviso sobre a inserção de IA na propaganda eleitoral. 

Mas, para além das diretrizes determinadas pelo TSE, é fundamental dialogarmos para uma proposta de regulamentação do uso da inteligência artificial. O PL 2338/2023 começou essa discussão, mas a votação foi adiada após a pressão das “big techs”. O mesmo ocorre com o  PL das Fake News, que está paralisado, e cobra mais responsabilização das plataformas digitais nas veiculações e impulsionamento de conteúdos falsos.

A certeza que temos é do potencial dano na utilização da IA para gerar desinformação, com materiais de áudio e vídeos fraudulentos, que têm o poder de aumentar os discursos de ódio e a polarização. Isso nos coloca em um cenário nebuloso, que põe em risco o processo democrático. 

A classe trabalhadora precisa estar atenta e organizada para esse cenário. Primeiramente, se apropriando do tema, entendendo como essas novas tecnologias impactam o mundo do trabalho e as decisões políticas. É fundamental também cobrar das grandes empresas de plataformas digitais transparência e ações contra a publicação e disseminação das fake news. A luta pela regulamentação das plataformas deve ser apoiada também pelo meio sindical. 

Os riscos que enfrentamos não podem ser maiores do que nossa disposição militante e capacidade de organização. Por isso é fundamental que cada trabalhador e trabalhadora se engaje efetivamente nessa campanha. É preciso estar nas ruas e nas redes. Denunciando o mecanismo perverso das Big Techs, ao mesmo tempo em que esclarecemos que a mídia tradicional também é mantida e apoiada pelos patrões. 

É preciso exaltar as pessoas, as entidades e as candidaturas que enfrentam e enfrentarão os inimigos do povo e da democracia, seguir suas páginas nas redes, compartilhar seus conteúdos. É preciso lutar não para vencer uma guerra, mas para sermos um antídoto contra um vírus extremista e violento que pretende acabar com a liberdade e a democracia no Brasil e no mundo.

Venceremos!

Antonio Netto - Secretário Interino de Comunicação da CUT-SP