Desigualdades sociais também são problemas ambientais
Publicado: 14 Novembro, 2025 - 11h38
Escrito por: Marco Dalama, assessor da Secretaria de Meio Ambiente, na Cúpula dos Povos
De acordo com dados da Global Footprint Network de 2019, atualmente gastamos recursos naturais equivalentes à 1,71 planetas terra, ou seja, gastamos 71% a mais de recursos que o planeta é capaz de repor/regenerar. Nossa pegada ecológica diz que, por um lado, superamos a capacidade dos ecossistemas em recompor sua matéria e, ao mesmo tempo, superamos a capacidade dos ecossistemas em absorver os resíduos gerados pela atividade humana: para equalizar nossa demanda com a capacidade do planeta, precisaríamos de um planeta 71% maior. Extraímos, produzimos, consumimos e poluímos mais do que o planeta é capaz de se repor e se regenerar: estamos gastando recursos do futuro para as atividades do presente.
Segundo o mesmo estudo, se todos no planeta tivessem um estilo de vida semelhante ao estadunidense médio, precisaríamos de recursos naturais equivalentes à 4,88 planetas; se todos consumissem como a média dos ingleses, precisaríamos de recursos naturais equivalentes à cerca de 2,5 planetas; se todos consumissem como a média dos brasileiros, precisaríamos de recursos naturais equivalentes à 1,62 planetas; se todos consumissem como a média dos angolanos, precisaríamos de recursos naturais equivalentes a apenas 0,66 planeta (ou seja, menos de um planeta – infelizmente, os angolanos têm a pegada ecológica pequena, não por opção, mas sim pela pobreza que lhes é imposta).
Por outro lado, dados do relatório da Oxfam denominado “Igualdade Climática: Um Planeta para os 99%” concluíram que, entre 1990 e 2015, o 1% mais rico da humanidade foi responsável por emissões de CO2 que ultrapassam o dobro das emissões dos 50% mais pobres da população mundial. Com relação à nossa pegada hídrica, o artigo Decrescimento (IV) – Os limites da água, de Luiz Marques, aponta que cada estadunidense consome, em média, 575 litros de água por dia em atividades diretas, enquanto indianos gastam em média 135 litros e moçambicanos gastam diretamente apenas 4 litros de água por dia, em média.
Notem que estamos falando em “médias”: média de consumo dos estadunidenses, dos ingleses, dos angolanos, dos brasileiros, do moçambicanos. Estamos falando como se todos tivessem a mesma condição socioeconômica dentro dos países, mas, enquanto brasileiros, sabemos bem que as desigualdades sociais se colocam de modo dramático no interior de nossa sociedade, algo que também ocorre em outras sociedades do mundo. As desigualdades sociais dentro dos países levam a pegadas ecológicas, de carbono e hídrica ainda maiores por parte de alguns grupos: se cada estadunidense gasta, em média, 575 litros de água diretamente por dia, quanto não será gasto de água pelos membros da elite econômica daquele país?
Abaixo seguem alguns dados sobre as desigualdades sociais que assolam nosso planeta:
- Em 2017, das 100 maiores entidades econômicas no mundo, 69 são corporações capitalistas e não economias nacionais (países), segundo a Fortune Global 500. De acordo com a Global Justice Now, se o Walmart fosse um Estado, ocuparia o décimo lugar, atrás somente dos EUA, China, Alemanha, Japão, França, Reino Unido, Itália, Brasil e Canadá. Se a Apple fosse um país, teria um tamanho similar ao da economia turca, holandesa ou suíça.
- 40 mil corporações controlam 2/3 de todo o comércio mundial, a maior parte delas está nas mãos de alguns poucos conglomerados de acordo com o estudo Word Hunger (Fome no Mundo) de Frances Moore Lappé, Joseph Coliins e Peter Rosset;
- Em 2023, O 1% mais rico detém 45,6% da riqueza global, enquanto a metade mais pobre do mundo tem apenas 0,75% de acordo com relatório da Oxfam;
- 81 bilionários detêm mais riqueza do que 50% do mundo combinados;
- Desde 2020, os cinco homens mais ricos do mundo viram suas fortunas mais do que duplicar, enquanto quase cinco bilhões de pessoas ficaram mais pobres.
O professor Luiz Marques, em seu livro Capitalismo e Colapso Ambiental, afirma que “a concentração de tanto poder econômico nas mãos de uma casta numericamente insignificante é sem precedentes na história da humanidade [...] seria ingênuo pensar que o setor privado não influi nas decisões políticas, na elaboração de leis e no dia a dia dos cidadãos”. Este poder econômico vaza para a esfera política, onde grandes Conglomerados Empresariais e Sociedades Anônimas fazem lobbys com Estados Nacionais para viabilizar seus interesses e aumentar seus próprios patrimônios: interesses incompatíveis com os limites ambientais do planeta e com a busca por uma sociedade justa, em que todos tenham os bens necessários para o bom desenvolvimento de suas capacidades físicas, cognitivas e psicossociais.
Por tais motivos, os/as trabalhadores/as, os povos da florestas, das águas e do campo precisam articular agendas comuns de resistência à destruição planetária e de construção de alternativas econômicas, sociais e culturais ao capitalismo voraz que se pauta pelo crescimento econômico infinito, pela geração de lucros crescentes que gera desigualdades, mortes, destruição e colapso ambiental.
Por tais motivos, devemos seguir na luta por uma Transição Justa com vistas a um novo modelo econômico com diretrizes claras e objetivas quanto à preservação do meio ambiente e políticas públicas que busquem a equidade e justiça social, com distribuição de renda e riqueza, emprego decente e salário digno; com a ampliação e o fortalecimento das políticas sociais universais como saúde, educação, saneamento e proteção social especialmente para as populações mais carentes.
Não Existe Geração de Emprego, Renda e Dignidade em um Planeta Morto!
Meio Ambiente só com Trabalho Decente!