• TVT
  • RBA
  • Rádio CUT
  • Rádio Brasil Atual
MENU

Bolsonaro e Doria dão as mãos para retirar direitos trabalhistas frente à pandemia

Presidente e governador, possíveis rivais nas eleições de 2022, travam disputas políticas durante pandemia do coronavírus, mas se apoiam em temas que mexem no bolso e na vida dos trabalhadores

Publicado: 24 Março, 2020 - 19h03 | Última modificação: 27 Março, 2020 - 20h03

Escrito por: Vanessa Ramos e Rafael Silva - CUT São Paulo

Reprodução Twitter/Arquivo
notice
João Doria e Jair Bolsonaro, então candidatos, nas campanhas para governo e Presidência, em 2018

No momento em que os trabalhadores e a população vivem um cenário de incertezas e medo, frente à pandemia do coronavírus, preocupados com a renda, a manutenção dos empregos, a fome e a saúde, o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), que se apoiaram nas eleições de 2018, vivem uma relação de ódio e amor no ambiente político.

Possíveis rivais nas eleições de 2022, Bolsonaro chamou no último sábado (21) o governador de "lunático", em referência à quarentena decretada em São Paulo. No mesmo dia, Doria respondeu ao chefe do Executivo federal: “chama coronavírus de gripezinha e eu que sou lunático?”, disse, ao cobrar liderança de Bolsonaro para governar o país.

Contudo, quando o tema se refere aos direitos trabalhistas e a mudanças na vida econômica, eles parecem concordar e o slogan “BolsoDoria” volta ao cenário brasileiro.    

A Medida Provisória (MP) 927, de 2020, publicada no domingo, 22, por Jair Bolsonaro, que apresentava como proposta deixar o trabalhador em casa, mas sem salário por até quatro meses, excluindo sindicatos em acordos e negociação coletiva, teve apoio do governador. "Avaliamos de maneira positiva e acertada a medida”, elogiou Doria, em referência a Bolsonaro que, na madrugada desta terça-feira, 24, porém, após pressão das entidades sindicais e dos movimentos populares nas redes sociais, revogou o artigo 18 da MP, que previa quatro meses sem salários aos trabalhadores.

Enquanto isso, lembra o presidente da CUT São Paulo, Douglas Izzo, as maiores centrais sindicais brasileiras lançaram nota com propostas diante da pandemia em que o Brasil se encontra, preocupados com medidas protetivas à população, a exemplo do que países como El Salvador, Itália, França, Reino Unido e Estados Unidos têm feito.

“Há uma semelhança crucial entre ambos os governos que ora se atacam, ora se aplaudem. Nenhum deles, até agora, apresentou proposta de políticas públicas capazes de atender a todos, garantindo a manutenção dos empregos e renda”, destaca Izzo.

O presidente da CUT São Paulo ressalta ainda que as centrais propõem a constituição de um Programa Emergencial que, entre outros pontos, assegure o fornecimento de água, luz, telefone, tv e internet; incentive acordos coletivos que preservem os salários e os empregos durante a pandemia e crie um Fundo de Emergência para, durante a crise, garantir um salário mínimo mensal para desempregados, informais e conexos.

“Enquanto a população sofre com a maior pandemia do século, que agrava a crise que vivemos na saúde e na economia, os que deveriam cuidar das pessoas, travam uma guerra política na imprensa de olho nas eleições de 2022, deixando de lado o que mais importa e se espera de governantes neste momento: a capacidade de enfrentar os problemas sem proselitismo e apresentar políticas de apoio e proteção, em especial a quem mais precisa de auxílio nesse momento”, completa.

Saúde a desejar

Diferentes categorias têm feito denúncias em relação à gestão paulista, assim como à postura do governo federal. Em São Paulo, Doria não adotou nenhuma medida para resguardar a saúde dos servidores com mais de 60 anos e anuncia medidas sem dar as condições necessárias.

Mesmo tendo decretado quarentena, o governador paulista tem anunciado medidas sem garantir que os trabalhadores que atuam na ponta tenham as condições mínimas para oferecer tais serviços.

O Sindicato dos Trabalhadores Públicos da Saúde do Estado de São Paulo (SindSaúde-SP) tem denunciado a falta de condições para garantir o trabalho seguro dos profissionais que lidam diariamente com o vírus.

Segundo a entidade, ao menos 60% dos trabalhadores da saúde, ligados ao governo, encontram-se acima de 50 anos, sendo que pelo menos 15% têm mais de 60 anos, muitos dos quais possuem doenças crônicas - o que os colocam no grupo de risco da Covid-19.

"Nossa categoria não se nega a trabalhar e está na linha de frente do combate ao coronavírus. É um orgulho fazer parte do Sistema Único de Saúde [SUS] e apoiar os paulistas nesse momento tão delicado. Mas as trabalhadoras e os trabalhadores da saúde pública, que compõem o grupo de risco, não podem pagar com suas vidas pelos erros recorrentes do governo estadual, que não realizou concursos necessários e que, agora, tem ausência de trabalhadores para atender na área" diz a presidenta do SindSaúde-SP, Cleonice Ribeiro.

Descuido com a educação

Deputada estadual e presidenta do Sindicato dos Professores do Estado de São Paulo (Apeoesp), Maria Izabel Noronha, a Bebel, afirma que Doria tem se mostrado um “perseguidor implacável dos professores e servidores da rede estadual de ensino”.

Segundo ela, o governador apenas esvaziou as escolas após pressão do sindicato. Mesmo assim, não fechou as unidades escolares, obrigando, de acordo com a parlamentar, a ida de equipes gestoras às escolas.

“Ele [Doria] não garante o pagamento de todos os professores [como os eventuais, por exemplo] e ainda os obriga a fazer atividades a distância com os estudantes, sem que o Estado propicie as condições técnicas para isso", aponta.

A mesma crítica também é feita pelo presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Educação de São Paulo (Afuse), João Marcos, que questiona se a vida de um servidor vale menos do que a de quem exerce funções em outros segmentos da sociedade civil.

"Nos últimos dias, temos acompanhado um verdadeiro espetáculo midiático do governador, que ocupa os meios de comunicação anunciando decretos relacionados à contenção da proliferação do Covid-19. Mas ele deveria editar uma única medida que preservasse, de fato, a vida dos servidores públicos”, destaca.

Para João Marcos, ao passo que o governador decreta o fechamento de shoppings, bares e academias, ele insiste em permanecer com as escolas parcialmente abertas. “Os profissionais da educação pública estão totalmente expostos ao vírus e suas fatais consequências, não apenas no ambiente de trabalho, mas no deslocamento desses profissionais de suas casas para o local de trabalho", diz o dirigente.

Na avaliação do presidente, Doria segue o receituário de Bolsonaro, “indo na contramão do que foi adotado em países como a China, Coreia do Sul e Itália, que decretaram o fechamento total e irrestrito de qualquer atividade profissional enquanto a pandemia permanecer", conclui João Marcos.

Servidores na capital

Também na cidade de São Paulo, os servidores públicos têm realizado inúmeras denúncias contra o prefeito Bruno Covas (PSDB).

Os trabalhadores relatam, por exemplo, a falta de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) em hospitais, itens que são necessários para os profissionais atuarem com menos risco junto aos doentes, especialmente nos casos suspeitos de coronavírus.

O Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo (Sindsep) afirma que há um problema generalizado nos locais de trabalho. Além disso, a prefeitura não liberou ainda trabalhadores que podem atuar a distância, que não estão na linha de frente em áreas essenciais à população.

“Estamos vivendo uma situação bem diferente do que vemos nas falas de Doria e Covas. Nossos hospitais estão abarrotados de pacientes com Covid-19 e as equipes estão trabalhando com poucos equipamentos como máscara, avental, protetores oculares. Já temos muitos casos de médicos e enfermeiros infectados, entubados por conta do vírus”, relata a secretária da Mulher Trabalhadora do Sindsep-SP, Luba Melo.