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Conta de luz ou o boleto do telefone? As angústias de um país endividado

Famílias com dívida chegam ao maior patamar desde 2015; para economista, dado aliado ao desemprego é preocupante

Publicado: 12 Abril, 2019 - 12h56

Escrito por: Rute Pina - Brasil de Fato

Agência Brasil
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Para dar conta de todos os boletos que chegavam em casa, a promotora de vendas Valdirene Vieira, de 26 anos, teve que fazer escolhas. Ligou para a empresa de telefonia e pediu para cancelar a linha fixa da sua residência, no bairro do Jaçanã, zona oeste da capital paulista. Dessa maneira, ela conseguiria pagar a conta de luz naquele mês.

A decisão, na verdade, não foi bem uma opção: até um mês atrás, Valdirene, que é mãe de uma bebê de dois anos, estava desempregada, apenas fazendo bicos. Ela e o marido tinham que fazer um jogo de cintura para conseguir arcar com todas as dívidas domiciliares.

“Depois, quando eu voltar a trabalhar, com algo temporário, eu retorno com outra linha [de telefone]. Já contas de luz e água, o que eu fazia era: pagava uma que estava quase vencendo e deixava outra e assim você ia pagando uma e depois outra”, explica Valdirene. 

A situação de Valdirene não é incomum e se repete pelo país. O percentual de famílias brasileiras com dívidas, com atraso ou não, chegou a 62,4% em março deste ano. O índice é superior aos 61,5% de fevereiro e aos 61,2% de março do ano passado, em 2018. E também é o maior patamar de endividamento de famílias brasileiras desde 2015. Os dados são da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

O economista Fausto Augusto Junior, coordenador de Educação do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), explica que o número, por si só, não refletiria um panorama econômico ruim. “O crédito é uma coisa importante quando se pensa o endividamento econômico e o aquecimento da economia”, pondera ele.

“Alguns tipos de dívida, inclusive, são boas. Se você está em um endividamento de casa própria isso é interessante; não só para você — porque você está caminhando para ter um investimento de longo prazo — mas também para a própria economia, porque a venda de imóveis puxa toda a cadeia econômica.”

O que o especialista vê como um problema nos dados divulgados pela CNC, na realidade, é a alta taxa de inadimplência. As famílias inadimplentes, ou seja, aquelas que têm dívidas ou contas em atraso, representam 23,4% em março deste ano. O dado é acima dos 23,1% do mês anterior.

“Ou seja, nesse momento, temos um problema que é que as pessoas não conseguem honrar as suas dívidas. Isso é um dado até um pouco mais grave do que o anterior”, diz o economista, que pontua que o dado sempre deve ser analisado conjuntamente com a taxa do desemprego no país.

Desemprego

E, de fato, são mais de 13,1 milhões de brasileiros, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que buscam trabalho — como Valdirene buscava. Há um mês, ela finalmente encontrou um emprego fixo, depois de um ano desempregada. "É preocupante porque é dívida, aluguel para pagar, família, filhos. E aí você fica sem saber o que fazer”, afirma a promotora de vendas.

“As coisas, pra mim, ainda estão se estabilizando. Mas eu ainda conheço muita gente desempregada. E há anos, viu? Só minha irmã mesmo, ela está procurando trabalho há três anos e não acha”, diz.

A taxa de desemprego no Brasil fechou em 12,4% nos três meses até fevereiro. O percentual está acima dos 11,6% registrados nos três meses até novembro. 

Em entrevista à TV Record no dia 1º de abril, o presidente de extrema direita Jair Bolsonaro (PSL) criticou como é medida a taxa de desempregados pelo IBGE. "É uma coisa que não mede a realidade, parece que são índices que são feitos para enganar a população."

No Terminal Barra Funda, E.B. pedia dinheiro ou algum outro tipo ajuda aos transeuntes. Ele tem 39 anos e mora em Brasilândia, bairro periférico localizado na zona oeste de São Paulo. Ele está há seis meses desempregado, após ter sido demitido de um restaurante em que trabalhava como auxiliar de cozinha.

Com duas filhas, E.B. conta que está com dificuldades de arcar com as contas. “É gás para pagar, aluguel, material escolar das crianças… é muito alto o custo de vida. Hoje em dia a gente está vendo que estamos trabalhando só para se alimentar”, desabafa.

Ele estima que tem uma dívida de R$4 mil. Mas, agora, sua renda mensal não passa de R$800. E ele ainda está arcando com dívidas que fez quando tinha boas perspectivas de trabalho, como a compra de uma geladeira e de uma televisão, feita em um carnê de uma grande rede de loja de departamento.

O economista Fausto Augusto, do Dieese, não enxerga uma política econômica no governo federal que possa amenizar a situação da população.

“Esse governo não tem política econômica e até agora não mostraram para o que veio”, diz o economista. “Você tem um momento hoje em que a única fala que o ministro da Economia [Paulo Guedes] tem é a reforma da Previdência. Não tem política para os desempregados não tem clareza de qual vai ser a política de juros, como pensa em melhorar o investimento público. O que estamos vendo é uma ideia de que, de  alguma forma, a reforma da previdência vai resolver todos os problemas.”

“Sem crescimento econômico, as famílias não conseguem sair do seu endividamento propriamente dito. Mesmo que a taxa de juros tenha caído, do ponto de vista da [taxa] Selic, mais a taxa de juros do mercado — a do cartão de crédito, do cheque especial — indica um problema grave no aquecimento econômico”, analisa Augusto.

Enrolados com o cartão

Na pesquisa da CNC, o cartão de crédito foi apontado como o principal motivo das dívidas por 78% das famílias endividadas, seguido por carnês, para 14,4%, e, em terceiro, por financiamento de carro, para 10%.

O antropólogo M.S. é um deles. Ele sempre usou cartão de crédito, seja para compras onlines ou quando a situação econômica apertava. No final do ano passado, ele teve uma queda em sua renda mensal e, por dois meses, não tinha todo o valor para cobrir integralmente a fatura.

“Eles, agora, tomam isso como um empréstimo involuntário. Não tem nenhum contrato e eles tomam isso como um empréstimo, a diferença do valor que não pagou, e partilha isso nas próximas faturas”, conta.

“A minha leitura é que a conjuntura econômica está desfavorável pelo menos há uns três anos. Isso tem muito impacto no cotidiano das pessoas. Isso reflete uma condição real de uma escassez de emprego, crise na esfera produtiva que impacta completamente na renda das pessoas”, opina o antropólogo.

O economista Fausto Augusto refuta a ideia de que as grandes dívidas existam só porque as pessoas não têm educação financeira para usar o cartão de forma menos nociva: “O brasileiro, na sua média, não tem uma tradição de ter uma estrutura de gastos e de receitas equilibrada. Isso não faz parte da nossa cultura, mas não é porque o brasileiro não quer: é porque normalmente sobra mês no salário, como a gente fala”.

“Tem uma parte da dívida de cartão de crédito que não tem economia financeira que resolva. O que não se tem é estabilidade de receitas, de rendimento do trabalhador. E ele acaba se utilizando de uma forma de crédito muito ruim e muito cara para tentar tapar esses buracos”, sintetiza.

Na outra ponta, o economista também lembra dos trabalhadores informais, que têm rendas variáveis de acordo com a sazonalidade — o que também não contribui para o planejamento financeiro das famílias.

O trabalho informal também tem crescido no país. Uma em cada quatro vagas é de trabalho parcial ou intermitente, segundo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Ainda segundo o instituto, existem hoje no país 16 milhões de casas, de um total de 72 milhões de domicílios, sem nenhum rendimento do trabalho.

Edição: Aline Carrijo

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