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Com o tema 'Vidas Negras Importam', marcha em SP protesta contra mortes no país

No Dia da Consciência Negra, marcha tomou ruas da capital paulista

Publicado: 20 Novembro, 2020 - 19h25 | Última modificação: 20 Novembro, 2020 - 19h45

Escrito por: Vanessa Ramos - CUT-SP

Dino Santos/CUT-SP
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Pelo 17º ano consecutivo, a Marcha da Consciência Negra de São Paulo saiu às ruas da capital paulista. A mobilização desta sexta-feira (20) começou no Museu de Arte de São Paulo (Masp) e seguiu até o Carrefour da Rua Pamplona para protestar contra o assassinato de João Alberto Silveira, 40. 

O homem negro morreu após ser espancado na noite dessa quinta-feira, 19, por um segurança do Carrefour e um PM, na cidade de Porto Alegre (RS). Esta morte elevou o clima de revolta e indignação e deixou nítido como o racismo se manifesta no cotidiano de milhares de brasileiros e brasileiras. 

O caso não é novidade na rede de supermercados. Em 2009, o vigia e técnico em eletrônica Januário Alves de Santana, 49, também negro, foi absurdamente ‘confundido’ com um ladrão, acusado de roubar o próprio carro, um EcoSport. 

No início de setembro, uma mulher que trabalhava como auxiliar de cozinha na rede Atacadão, ligada ao Carrefour, em Santa Cruz, zona oeste do Rio de Janeiro, foi demitida após reportar aos chefes ações racistas e de intolerância religiosa. Ela recebeu um avental com a inscrição “só para branco usar”. 

Em setembro de 2018, Luís Carlos Gomes, negro e deficiente físico, foi agredido por seguranças da unidade de São Bernardo do Campo no ABC paulista, após as câmeras de segurança terem flagrado o consumo de uma lata de cerveja dentro da loja. 

De acordo com o Atlas da Violência 2020, a taxa de homicídios da população negra no Brasil saltou de 34 para 37,8 por 100 mil habitantes entre 2008 e 2018, o que expressa um aumento de 11,5% no período.

Racismo mata

Com distanciamento social e o uso de máscaras e álcool em gel para proteger contra o novo coronavírus, os gritos questionaram 'quantos de nós tem de morrer para essa guerra acabar?'. A marcha protestou contra as políticas de morte dos governos, as inúmeras mortes de jovens negros no país, a violência doméstica que atinge principalmente as mulheres negras e a desigualdade entre brancos e negros no mundo do trabalho. 

Para a secretária de Combate ao Racismo da CUT-SP, Rosana Silva, a política racista pratica no Brasil coloca negros e negras na linha de frente da desigualdade. 

“É uma história que se repete, de assassinatos e uma violência em suas várias formas, frente a um governo que tem papel fundamental na construção e execução de uma política que vai desenhando quem morre e quem vive. 

É assim somos colocamos na linha de frente para sermos trucidados”. 

Por outro lado, segundo a dirigente, a resistência segue firme. “As eleições dos últimos dias mostraram que nossos quilombolas de resistência se manifestaram de uma forma única, ampliando sua representação. São muitas mulheres e homens, muitos Zumbis e Dandaras sobrevivendo e lutando contra o racismo estrutural todos os dias e por um país sem violência”, afirma.

Para o Coordenador do Coletivo de Combate ao Racismo do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região, Fábio Rogério Pereira, é fundamental a ampliação da representatividade de homens e mulheres negros e negras, trans e jovens na política brasileira. 

“É importante compreendermos todo o processo histórico da população negra. Existiu um ciclo de escravização violenta por mais de 350 anos, que têm consequências até hoje. Vivenciamos 132 de uma abolição inacabada, num país que ainda não fez a reparação. Em todos esses anos, tivemos poucos sinais de política emancipatória da população negra. Além disso, é importantíssimo termos em mente que a luta antirracista não é um papel apenas dos negros e negras, mas de toda a sociedade brasileira”, ressalta o dirigente, que é funcionário do banco Itaú. 

Presidente da CUT-SP, Douglas Izzo, apontou que a marcha deste ano enfrenta duas grandes pandemia a de coronavírus e a do preconceito. 

"As atividades de 20 de novembro neste ano são marcadas pela pandemia e, infelizmente, por mais um ato covarde e rascista que resultou no assassinato de um rapaz negro em Porto Alegre. Não vamos deixar isso passar impune, cobraremos punição dos responsáveis por mais essa barbaridade e é, portanto um dia de luta contra a opressão que historicamente a classe trabalhadora sempre enfrentou", aponta.

Professor de História e especialista em direitos humanos, diversidade e violência André Leitão destaca a importância de afirmar que o Dia da Consciência Negra é uma conquista daqueles que lutam diariamente contra o racismo. 

“Primeiro, acho importante que se a gente tem pelo menos um dia em que o debate racial alcança relativa centralidade aqui no país é por conta de uma mobilização histórica de negros e negras, em contraposição ao discurso nacional racista do 13 de maio. Mas para além dessa data, temos o dia a dia, e se manter vivo em um país estruturado pelo racismo é o nosso maior ato político.”

Dino Santos/CUT-SPDino Santos/CUT-SP

Apesar das conquistas, destaca, a ampliação da luta em defesa da igualdade passa por ocupar os espaços públicos e enfrentar um governo com alto viés racista e lembrar que a principal vítima da pandemia de coronavírus desprezada pelo presidente Jair Bolsonaro é a população negra. 

“Acredito que estamos avançando em alguns campos estratégicos, exemplo disso é o aumento de pessoas negras eleitas para cargos no Legislativos ou Executivo na ultimas eleições. E ocupar esse espaço é fundamental para um combate à necropolítica que opera em nosso país da qual Jair Bolsonaro é o seu maior representante. O seu descaso com a pandemia afeta diretamente a população negra do país, a mais afetada pela crise sanitária. 

Porém, para além dos espaços institucionais é muito importante a mobilização permanente dos movimentos negros nas ruas exigindo o fim da violência policial, mais oportunidades no mercado de trabalho entre outras pautas. A atuação em várias frentes será o caminho para a superação do racismo em nosso país”, defende.

Denuncie!

No início deste mês, a CUT-SP lançou um canal de denúncias contra o racismo no estado paulista.

A proposta deste canal, que envolve o acompanhamento de uma equipe de advogados que prestarão atendimento gratuito, é receber denúncias de racismo que ocorram dentro do mundo do trabalho, dar desdobramento e cobrar respostas às instâncias necessárias. (Clique aqui para saber mais)