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Com Lula, relações internacionais também consideravam a África, diz ex-ministra

Em conversa na CUT, Matilde Ribeiro, que chefiou a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, diz que país retrocede ao priorizar diálogos com os Estados Unidos e Europa

Publicado: 12 Fevereiro, 2020 - 18h57 | Última modificação: 12 Fevereiro, 2020 - 19h04

Escrito por: Rafael Silva - CUT São Paulo

Roberto Parizotti/CUT
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Para debater as relações entre Brasil e África e as políticas públicas de combate ao racismo, a CUT Brasil e a CUT São Paulo realizaram, na última terça-feira, 11, uma roda de conversa com a ex-ministra da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) no governo Lula, Matilde Ribeiro.

Matilde fez uma linha do tempo resgatando ações importantes para o movimento negro realizados durante o governo Lula. Ela chefiou a SEPPIR entre 2003 e 2008. “Foi um governo bastante perseguido pela mídia, assim como fui bastante perseguida justamente pela temática na qual atuava”, disse. Outra questão importante que surgiu no período sobre a linha de atuação do governo no trato ao tema. “Alguns setores defendiam que a reparação histórica deveria ser feita pelo viés financeiro, enquanto que nós defendíamos que deveria ser pela via das políticas públicas”.

Sua atuação foi importante para a construção de políticas voltadas às populações quilombolas, o início da tramitação do Estatuto da Igualdade Racial e a aplicação de cotas nas instituições de ensino. “Hoje as universidades não são mais as mesmas. Particularmente estou em uma instituição onde a negrada domina”, celebra. Atualmente, Matilde é professa na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab).

Na conversa, ela falou sobre as diferenças de relação com o continente africano, que passou a ser tratado de forma mais intensa do que nos governos anteriores. “O Brasil, tradicionalmente, trabalhava as relações internacionais com os Estados Unidos e a Europa, lógica que voltou com força atualmente. A África sempre ficou à deriva. Aí colocamos no programa de governo que tratar de relações internacionais significaria tratar também com o continente africano e de maneira mais intensa do que havia sido feito em momentos anteriores”, afirmou.

Ampliar a discussão

O debate desta terça foi uma continuidade à campanha “Basta de Racismo no Trabalho e na Vida”, ação permanente da Central e de seus sindicatos para combater qualquer forma de discriminação no mundo do trabalho. “Essa conversa, na conjuntura que vivemos hoje, é muito importante. São muitos retrocessos patrocinados pelo governo Bolsonaro. Mas espaços como esse nos fortalece para que possamos fazer a discussão nos nossos locais de trabalho”, disse a secretária de Combate ao Racismo da CUT-SP, Rosana Silva.

Para a secretária de Combate ao Racismo da CUT Brasil, Anatalina Lourenço, o debate também é importante por ocorrer em momento de desmonte dos espaços e investimentos de educação. Ela lembrou sobre a Lei 11.645/08, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas do ensino fundamental e ensino médio, ponderando haver poucos recursos e formação para os que estão na ponta.

Roberto Parizotti/CUTRoberto Parizotti/CUT

Durante a aberta do encontro, o presidente da CUT-SP, Douglas Izzo, ressaltou a importância do movimento sindical na luta contra a discriminação racial. “Essa conversa ocorre em momento difícil para todos, em especial para aqueles que defendem a democracia, uma sociedade justa e uma política de reparação para a população negra brasileira, escravizada no passado. Estamos vendo políticas importantes, conquistadas nos governos progressistas, serem desmontadas. Nós, enquanto central sindical, temos o dever de denunciar e lutar contra a exploração e a desigualdade com os trabalhadores negros”, disse o dirigente.

A população negra é a que mais sofre com o desemprego e a desigualdade salarial, segundo pesquisa do IBGE do final do ano passado. No levantamento do Instituto, entre os negros, a taxa de desemprego é de 14,9%, para os que se declaram pardos é de 13,6, enquanto que para os brancos é de 9,2%. Já nos rendimentos, para cada R$ 1 mil pagos a uma pessoa branca, paga-se cerca de R$ 550 para um trabalhador preto ou pardo.

Assista abaixo o primeiro momento da Roda: