MENU

Alguns dias na capital do mundo

Publicado: 18 Novembro, 2025 - 16h47 | Última modificação: 19 Novembro, 2025 - 16h34

Escrito por: Marco Dalama, assessor da Secretaria de Meio Ambiente, na Cúpula dos Povos

notice

Estar em Belém do Pará ao longo das duas semanas em que ocorrem a COP30 e a Cúpula dos Povos na COP30 tem gerado um turbilhão de impressões, reflexões e emoções difícil de escrever em poucas palavras.

O cotidiano literalmente ferve em sua temperatura acima da média pré-industrial (com os próprios paraenses comentando que o calor também está forte para eles) e nos eventos que ocorrem em dezenas de espaços de uma cidade que não seria exagerado chamar de capital do mundo, mesmo que momentaneamente. Blue Zone, Green Zone, Agri Zone, Free Zone, Yellow Zones, Cúpula dos Povos, COP do Povo, Aldeia COP30, Casa Chico Mendes, Casa das ONGs com suas milhares de atividades divulgadas de forma dispersa na internet gera a impressão de que sempre há uma atividade mais importante ou mais interessante de se acompanhar neste exato momento: painéis, palestras, rodas de conversa, workshops, oficinas, exposições, conferências, plenárias, assembleias, encontros, manifestações, marchas, barqueatas, shows e festas. Diante da enorme dispersão das informações, os analógicos mais saudosistas – e mais experientes – recordam com carinho das enormes cartilhas de atividades do Fórum Social Mundial que concentravam em um só local a grande maioria das informações.

Mas a cidade realmente pulsa nas ações, no orgulho manifestado pelos seus moradores e nos mais diferentes tipos de pessoas: executivos e executivas em trajes de esporte fino (a presidência da COP30 dispensou as gravatas e os trajes formais de negócios devido ao calor e à umidade de Belém do Pará); militantes de movimentos sociais e sindicais; ambientalistas; indígenas; quilombolas; representantes de populações tradicionais (caiçaras, gerazeiros, marisqueiras, quebradeiras de coco, etc.) personagens artísticos interessantes (Florestas Itinerantes, Curupiras e Caiporas); pessoas de diferentes partes do mundo em seus trajes típicos; gente dos mais diversos biotipos, fechados em suas rodas e falando em múltiplas línguas nos lembram que esta é uma Conferência Internacional e não um evento do Governo Federal.

Não tivemos acesso à Blue Zone, que o espaço oficial da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) e é onde efetivamente se tomam as decisões sobre os rumos das políticas climáticas internacionais. A Blue Zone é onde ocorrem as negociações oficiais em que apenas delegações oficiais, chefes de Estado, observadores e imprensa credenciada são autorizadas. Companheiros e companheiras que estiveram presentes descreveram como os muitos pavilhões nacionais demonstram o – geralmente duvidoso – compromisso de seus respectivos países em “fortalecer a resposta global à ameaça das mudanças climáticas” e em “manter o aumento da temperatura média global bem abaixo dos 2°C acima dos níveis pré-industriais”, de acordo com o que reza o Acordo de Paris.

Relatos também dão conta das diferentes reuniões técnicas dentro de salas em que negociadores oficiais dos chamados “grupos de contato” se sentam à mesa, em frente a uma pequena plateia sem direito a voz ou a voto, para debater temas bastante específicos (como “financiamento para projetos que visam a recuperação de solos degradados” ou “padronização da submissão e compatibilização das NDCs”) em um tempo limitado e rigorosamente controlado. Sabemos também que o movimento sindical e a Central Única dos Trabalhadores estiveram presentes em diferentes atividades na Blue Zone, fazendo sua incidência política (ou advocacy, dependendo com quem se fala) sobre a Transição Justa para os trabalhadores e populações vulnerabilizadas (temática que já tratamos em outras matérias da série e que você pode acessar aqui: https://sp.cut.org.br/noticias/o-papel-do-movimento-sindical-cutista-na-cop30-defender-a-transicao-justa-a040).

Quem chega à Zona Verde (Green Zone) da COP30 em Belém se depara com um ambiente semelhante a uma feira de negócios em um belo pavilhão de exposições. Caminhando entre os espaços de carpete e luzes verdes nos deparamos com diversos stands de empresas, governos estaduais, consórcios interestaduais, órgãos públicos das três esferas, entre outros.

Na Green Zone, encontramos debates importantes sobre proteção aos protetores da natureza; transição justa; demarcação de Terras Indígenas como instrumento de proteção ambiental; metodologias de contabilidade de carbono; diálogo entre saberes tradicionais e conhecimento científico; caminhos para a restauração florestal; entre outras problemáticas importantes a serem enfrentadas para um mundo ecologicamente mais equilibrado.

Por outro lado, vemos stands de empresas divulgando suas ações de “responsabilidade socioambiental”: uma empresa indiana de etanol feito a partir de bambu tenta nos convencer de que a simples troca de combustíveis fósseis para biocombustíveis pode salvar o mundo, mesmo que mantidos os atuais padrões insustentáveis de produção e consumo; uma conhecida empresa de equipamentos eletrônicos falando sobre “modernização da infraestrutura global de eletricidade e a transição energética”; empresas de veículos automotores promovendo caminhões movidos a biocombustível, bem como seu o mui-importante papel na “mobilidade sustentável”; uma gigante de auditoria e consultoria global (membro do chamado "Big Four") realizando painéis em língua inglesa sobre, por exemplo, “Como a implementação de disclosures de sustentabilidade fortalece a resiliência empresarial”. Stands empresariais, logotipos de grandes e conhecidas empresas do ramo da mineração e da pecuária que vemos em diferentes locais da Zona Verde, bem como a bonita caixinha de água oficial da COP30, feita para promover uma multinacional do setor de embalagens, nos reforça o temor não infundado do chamado Green Washing: a estratégia de marketing usada por empresas para se apresentarem como mais ecologicamente corretas do que realmente são (ou menos ecologicamente predadoras do que verdadeiramente são).

Ainda na Green Zone, no Pavilhão Brasil, o estande do Governo Federal, temos painéis interessantes como “Fortalecimento da cooperação regional contra a mineração ilegal de ouro na Amazônia”, debates honestos como “Balanço Ético Global: um apelo à ação climática” e debates controversos como “Plano de Ação Climática, REDD+ Jurisdicional e Transição Energética”. Todavia, também podemos nos deparamos com debates como “A Importância do Agronegócio para o Desenvolvimento Sustentável na Sociedade Amazônida”, debate realizado por um deputado em um estande de um governo estadual da região amazônica. Se pensarmos que cerca de 90% das terras desmatadas na floresta amazônica são destinadas ao agronegócio e que por volta de 74% das emissões dos gases de efeito estufa no Brasil estão ligadas ao agronegócio (além dos problemas relacionados à grilagem de terras, contaminação por agrotóxicos e violência contra os agentes protetores da floresta), um debate com esse tipo de título pode perfeitamente ser qualificado com adjetivos ainda mais críticos do que “mal-intencionado”.

Por fim, temos a Cúpula dos Povos cujas ações foram concentradas na Universidade Federal do Pará (UFPA): para as pessoas de meia idade às mais experiente, evento – e paisagem com a predominância de um grande e belíssimo rio – que nos remetem ao Fórum Social Mundial da “quase que revolucionária” Porto Alegre do começo dos anos 2000.

A Cúpula dos Povos, enquanto articulação paralela à COP30 apresentou debates e ações mais incisivas para um mundo socialmente mais justo, ecologicamente mais correto, economicamente mais viável e culturalmente mais aceitável. O objetivo (que não se encerra após os 5 dias de ações em Belém) é, de acordo com seu manifesto, “fortalecer a construção popular e convergir pautas de unidade das agendas: socioambiental, antipatriarcal, anticapitalista, anticolonialista, antirracista e de direitos, respeitando suas diversidades e especificidades, unidos por um futuro de bem-viver e [...] avançar em espaços coletivos que defendam a democracia e a solidariedade internacional, enfrentem a extrema direita, o fascismo, os fundamentalismos, as guerras, a financeirização da natureza e a crise do clima”. Os debates da Cúpula dos Povos foram divididos em 6 eixos temáticos para denunciar a insuficiência das medidas adotadas pelos governos nacionais e as falsas soluções de mercado para as crises climáticas e ambientais, bem como para demandar a participação efetiva da sociedade civil nos espaços decisórios de enfrentamento da crise climática.

Neste sentido, pudemos acompanhar atividades autogestionadas (chamadas de atividades enlaces) como “Crise Climática e Direitos da Natureza: Desafios para o Bem Viver”; “Por uma Cartografia Justa do Financiamento Climático: da Amazônia para o Mundo”; “Transição Energética e impactos nos territórios: o caso Serra do Mel” (atividade da CUT Nacional); “Hacia La Construcción De Un Sistema Multilateral Por Y Para Los Pueblos”. Dentre outras atividades, como feiras, marchas, assembleias, plenárias, cine-debates e atividades culturais, encontramos companheiros e companheiras de diferentes tipos, dos mais exaltados aos mais comedidos e alinhados ao terceiro setor, passando por meio de místicos, artistas, artesãos e representantes de povos e populações tradicionais de todo o mundo.

Os encontros e os espaços são paralelos e diferentes, mas a temperatura média do planeta sobe, os eventos meteorológicos são cada vez mais extremos e frequentes (como furacões, nevascas, secas, ondas de calor, tempestades) e demandam soluções reais que se encontram fora da esfera da financeirização da natureza e da mercantilização da vida.

As soluções reais parecem estar em modos de vida mais conectados à terra e à natureza; em sistemas em que o aumento infinito da produção, do consumo e da acumulação não sejam os objetivos finais; em cosmovisões em que a natureza e os seres humanos não estejam separados; em organizações em que possamos trabalhar menos, trabalhar todos, produzindo e consumindo somente o necessário para agredirmos menos o meio ambiente.

Entre espaços assépticos, espaços democráticos, espaços populares, espaços progressistas, espaços controversos e espaços bem intencionados passamos. Entre burocratas, empresários, lobistas profissionais, picaretas, ecocidas, revolucionários, sindicalistas, camponeses, povos originários, populações tradicionais, negras e negros, jovens, ambientalistas, trabalhadores/as, midialivristas, favelados/as, periféricos/as, LGBTQIA+ e pessoas com deficiência passamos.

A disputa está em aberto: as decisões oficiais muito provavelmente não resolverão os problemas climáticos nem ambientais, mas pessoas, povos, organizações e coletivos se articularam em uma nova tentativa que não se encerra em Belém, nem em novembro de 2025.    

Após impressões, reflexões e emoções de semanas ferventes, a certeza é que, ao voltarmos para nossos territórios, precisaremos continuar a nos organizar, a nos articular, a lutarmos com mais força por um mundo socialmente mais justo, ecologicamente mais correto, economicamente mais viável e culturalmente mais aceitável.